8 de jun de 2011

Oficina leva arte a detentos

"Matéria extraída do Portal R7.com"
No projeto Como Vai Seu Mundo, presos trabalham com teatro, vídeo, grafite e música

João Varella, Marina Santa Clara Yakabe e Julia Chequer, do R7
Um grupo de 30 pessoas com pouca noção de teatro se junta para criar e interpretar duas peças em 20 minutos. De bate-pronto, são criados textos cheios de conteúdo engajado e improvisações. A atividade, que seria considerada normal para alunos de teatro, foi executada com êxito por presidiários do Complexo Penal José Parada Neto, em Guarulhos, na Grande São Paulo. O trabalho faz parte do projeto Como Vai seu Mundo, oferecido para detentos do local desde o mês de janeiro.

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No projeto, além do teatro, os presos do regime semiaberto tem a oportunidade de desenvolver sua veia artística por meio de vídeo, grafite, música entre outros.
O R7 acompanhou um dia de oficinas do projeto, que acontecem em um sobrado sem forro que serve de local ecumênico aos presos do complexo. Muitos deles disseram que as atividades são uma "válvula de escape" da prisão. Um deles, um rapaz* de 26 anos que trabalhava em uma oficina mecânica antes de ser preso em 2009, apontou uma rota de fuga para a reportagem.
- É fácil. Se qualquer um quiser sair daqui, sai. É só pular uma grade.
Ele disse que esse tipo de atividade “acalma” e ajuda a preparar os presos para enfrentar o “mundão” de novo. No jargão dos detentos, “mundão” é todo espaço que existe depois da porta de saída da penitenciária.
Nas atividades do projeto, ninguém tenta tapar o sol com a peneira. Nas duas peças assistidas pela reportagem, havia referências claras à condição de preso, aos erros cometidos por eles no passado e ao preconceito. Muitas das reclamações são as mesmas que incitam rebeliões em cadeias: falta de infraestrutura para atender a todos e problemas com os horários das visitas.
Mudança no indulto Muitos se disseram descontentes com a medida da Justiça que mudou o regime de indultos (saídas temporárias em datas como Páscoa e Dia das Mães) no local. Desde fevereiro, os presos do Complexo Penal José Parada Neto passam a sair apenas no Natal, Ano Novo e nos aniversário de parentes. A medida foi assinada pelo juiz Jayme Garcia dos Santos Júnior, titular da Vara das Execuções Criminais de Guarulhos.



Foi o próprio Santos Júnior quem propôs a criação da atividade ao saber que a penitenciária receberia um detento ilustre: Marcos de Omena, o rapper Dexter. Entre as várias composições de Dexter está a música Como Vai Seu Mundo, que acabou batizando o projeto ("Através das grades olhei pro céu azul / Um pássaro voava do norte pro sul", diz a letra).

O juiz defende a sua portaria, dizendo que dessa forma fica mais fácil de controlar os poucos presos que saem de cada vez, ao invés de "despejar todos na rua" ao mesmo tempo. Ele também diz que já esclareceu os motivos da mudança para os detentos.

– Dois dias depois da portaria eu fui até a penitenciária e falei: 'olha, infelizmente os senhores se encontram em uma situação excepcional e essa segregação vai privar os senhores de desfrutar ou de viver determinadas situações da vida. Isso é consequência dos atos dos senhores'.

Após a mudança no regime de indulto, o clima de tensão tomou conta do complexo. Eduardo Bustamante, idealizador do projeto e assessor de Dexter, vinha desde o começo do projeto batendo na tecla de que os detentos precisavam se expressar com ideias, não através da violência. Não houve rebelião em Guarulhos, o que poderia fazer com que muitos voltassem para o regime fechado ou ainda aumentar as penas.

Dramaturgia
A atividade teatral presenciada pelo R7 foi ministrada pelo ator Julio Suñe. A primeira tarefa proposta por ele ao grupo foi a de que os presos se imaginassem em um elevador que sofre uma pane elétrica e interpretassem livremente alguns estereótipos. Metade dos presos topou participar do jogo teatral. Outra metade assistiu e riu da encenação feita pelos colegas.
Já na proposta de montar um texto e improvisar as interpretações, houve maior adesão. Foi o momento em que os presos falaram mal de quem olha feio para alguém que "já pagou pelos seus erros". No final da tarde, após três horas de exercícios dramáticos e conversas, os presos encerraram as atividades e voltaram para suas celas. Muitos perguntavam qual seria a atividade da semana seguinte e o que deveria ser feito no dia 19 de junho, quando o projeto se encerra.
O juiz de Guarulhos pretende expandir o Como Vai seu Mundo para os presos do regime fechado. Um projeto para esse público deve ser definido ainda neste ano. Santos Júnior pretende ainda realizar neste ano uma feira de arte com produções dos funcionários e dos presos do regime fechado. O evento deverá ser batizado de Feira de Arte e Ciência.
* A pedido dos próprios presos, seus nomes não foram revelados nesta reportagem

Um comentário:

  1. Cheguei a me emocionar ao ler a matéria! Passa um filme na minha mente...realmente eles precisam q alguém pense em levar algo positivo p eles naquele lugar...
    ...eu penso q se algum Ser Humano tivesse uma iniciativa assim em cada presídio, certamente iria amenizar o sofrimento e a solidão da população...pq se tratando de “presos“ é necessário q uma atitude dessas parta de um “ Ser Humano “...a maioria tratam eles como “QUALQUER COISA” esquecem q ali existem vidas...e q essas vidas expressam sentimentos...
    Nesse caso, ñ importa qual delito foi cometido, eles já estão lá pagando por eles, JÁ FORAM JULGADOS!!! Porém, poucos entendem que eles estão carentes de oportunidades! Eu particularmente tenho uma admiração especial pelos idealizadores desse projeto...vcs podem até levar em consideração o fato do meu marido participar, mas durante 9 anos de visita eu passei por 9 penitenciárias diferentes e apenas uma delas eu conheci de fato um diretor que queria fazer alguma coisa pelos internos... mas, infelizmente ñ tinha apoio p isso, q pena... na prática ñ foi possível, mas confesso q p mim só a boa intenção de querer fazer já foi válida.
    Eu esperei nove anos p ver alguém ter uma iniciativa de fazer o bem...
    No caso do projeto “Como vai seu mundo” o Dr. Jayme nos deu a oportunidade!
    Desejo do fundo do meu coração q esse projeto possa se expandir e ser "uma válvula de escape" para muitos reeducandos...e que muitos possam olhar para seu mundo e ver q em suas mãos está a oportunidade de fazer a diferença na vida de alguém, devemos fazer o bem sem olhar a quem...ñ importa q são vistos apenas como “presidiários“, devemos enxergar os seres humanos q ali estão esperando apenas uma mão estendida e uma oportunidade de mostrar q é possível se regenerar.


    Ass. Patricia Omena

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